Comunicação
Sua doação faz a diferença para nós!

I JOGOS PARAESPOTIVOS

Compartilhe:

MONPAD completa 10 anos de autodefensoria, autonomia e participação

Uma década depois de sua criação, o Movimento Nacional Pestalozziano de Autodefensores reúne histórias de escolhas, conquistas e pessoas com deficiência intelectual e múltipla cada vez mais presentes nos espaços onde decisões são tomadas.

Na última sexta-feira, 23 de outubro de 2026, o MONPAD completou 10 anos. Na data do aniversário, Welington Henrique Pereira Souza Júnior resumiu a celebração em uma frase simples: “Hoje é dia de festa.”

Dez anos antes, pessoas com deficiência intelectual e múltipla de diferentes regiões do Brasil estavam reunidas em Aracruz, no Espírito Santo, durante o XIV Congresso Nacional das Associações Pestalozzi e o I Fórum Nacional de Autodefensores. Ao longo de quatro dias, 82 participantes conversaram sobre direitos, apresentaram suas próprias demandas, fizeram escolhas e elegeram representantes.

Nascia ali o Movimento Nacional Pestalozziano de Autodefensores, o MONPAD.

Mais do que criar uma nova estrutura dentro do Movimento Pestalozziano, aquele encontro afirmava um princípio: pessoas com deficiência intelectual e múltipla deveriam participar das decisões sobre suas próprias vidas e sobre as ações e políticas que afetavam seus direitos.

A Carta do Espírito Santo, construída pelos participantes do Fórum, deixou isso registrado. Entre as reivindicações estava uma frase que continua atual: “Queremos ter o direito de participar da elaboração da organização dos próximos Congressos Nacionais.”

O documento também defendia mais acessibilidade, participação no planejamento das Associações Pestalozzi, oportunidades de educação, transporte acessível, acompanhamento das discussões no Poder Legislativo e cumprimento da Lei Brasileira de Inclusão.

Não era um pedido para que outras pessoas falassem por eles. Era a defesa do direito de participar.

 

 

 

Uma história construída passo a passo

O MONPAD não surgiu do nada. Em 2012, no Rio de Janeiro, uma experiência estadual de organização de autodefensores ajudou a abrir caminho para que a proposta ganhasse alcance nacional.

A autodefensoria também se apoia em princípios da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, como autonomia, liberdade para fazer escolhas e participação plena na sociedade.

Em Aracruz, esses princípios ganharam uma organização nacional. O primeiro Conselho Nacional de Autodefensores foi eleito com representantes das cinco regiões do país e tomou posse em 26 de outubro de 2016.

A partir dali, Fóruns e Conselhos passaram a formar uma rede de participação. Os Fóruns se tornaram espaços para discutir problemas, construir propostas e escolher representantes. Os Conselhos passaram a levar essas demandas aos espaços de decisão.

Na FENAPESTALOZZI, os conselheiros nacionais de autodefensoria têm direito a voz e voto em reuniões e assembleias. É uma mudança importante: as pessoas com deficiência intelectual e múltipla não estão apenas entre aquelas para quem as ações são pensadas. Elas também participam de sua construção.

Para Ivana Silva, Facilitadora Nacional do MONPAD, essa mudança exigiu tempo e enfrentamento de antigas formas de pensar.

“Vejo como uma caminhada linda, que nem sempre foi fácil, com muitas dificuldades das pessoas entenderem que eles são pessoas com desejos e direitos, que só precisam ser ouvidos, não precisam que ninguém decida as coisas por eles”, afirma.

Hoje, ela percebe outra realidade.

“Meu coração se alegra em ver o quanto eles vêm se desenvolvendo, buscando sua autonomia, participando de conselhos e se sentindo muito mais seguros para se posicionar e para fazer suas escolhas.”

Essa diferença entre apoiar e decidir pelo outro está no centro da autodefensoria. O facilitador pode ajudar a compreender informações, organizar ideias e tornar os espaços mais acessíveis. A escolha continua sendo do autodefensor.

Rafaela Parducci, também Facilitadora Nacional do MONPAD, acompanhou essa transformação. Para ela, uma das maiores conquistas da década foi ver os autodefensores assumirem um papel mais ativo dentro do Movimento Pestalozziano.

“Eles deixaram de ser apenas participantes das atividades para assumir um papel cada vez mais ativo na construção do Movimento Pestalozziano.”

Rafaela lembra que, nos primeiros anos, muitas vezes era necessário incentivar os primeiros passos. Hoje, vê autodefensores mais seguros, conscientes de seus direitos e presentes nas decisões e na gestão das Associações Pestalozzi.

“Nosso papel como facilitadores é continuar oferecendo o apoio necessário, respeitando o tempo, as escolhas e a individualidade de cada autodefensor, sem substituir sua voz ou suas decisões”, explica.

 

Das primeiras reivindicações aos espaços nacionais

As pautas do MONPAD também cresceram ao longo desses 10 anos.

Se a Carta do Espírito Santo, em 2016, cobrava participação, educação, acessibilidade e transporte, os Fóruns seguintes ampliaram o debate. Trabalho, autonomia financeira, relacionamentos, educação sexual, permanência no ensino superior, esporte, combate ao capacitismo e participação em conselhos de direitos passaram a fazer parte das reivindicações.

Na Carta de Brasília, produzida durante o IV Fórum Nacional, em 2022, os autodefensores defenderam maior presença das pessoas com deficiência intelectual e múltipla nos espaços onde políticas públicas são discutidas. Em 2023, em Foz do Iguaçu, novas propostas trataram de acessibilidade nas cidades, oportunidades de trabalho, paradesporto e acesso mais simples às informações institucionais e financeiras.

Em 2024, o VI Fórum Nacional elegeu o Conselho Nacional para o mandato de 2025 a 2027. Uma década depois de Aracruz, eleições, Fóruns e Conselhos já fazem parte da organização do Movimento Pestalozziano.

Mas talvez a dimensão dessa caminhada apareça com ainda mais força quando se observa a chegada dos autodefensores a espaços nacionais.

Em 2022, Jonas Pontes de Oliveira Brito passou a representar a FENAPESTALOZZI como titular no Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência, o CONADE, com Carlos Henrique Viana na suplência. Nos anos seguintes, Jonas continuou participando das atividades do Conselho.

Ismael Utino também chegou a um espaço nacional de participação: tornou-se conselheiro titular do Conselho Nacional de Assistência Social, o CNAS, no segmento de usuários, para o mandato de 2024 a 2026.

Há um significado importante nessa trajetória. Em 2016, os autodefensores reivindicavam mais espaço dentro das próprias Associações Pestalozzi. Anos depois, passaram também a ocupar conselhos onde políticas públicas nacionais são discutidas.

Para a presidente da FENAPESTALOZZI, Ester Pacheco, é justamente aí que a autodefensoria deixa de ser apenas um princípio e se transforma em prática.

“A autodefensoria não pode existir apenas no discurso. Ela precisa se transformar em presença, em participação, em escuta e em poder de decisão.”

Marco Castilho e os caminhos que ficaram abertos

Ao contar os primeiros 10 anos do MONPAD, um nome aparece de forma recorrente na memória de quem viveu essa construção: Marco Antônio Castilho Carneiro.

Quando o movimento foi criado, em 2016, Marco era vice-presidente da FENAPESTALOZZI. Foi um dos idealizadores do MONPAD e participou diretamente da organização da autodefensoria em âmbito nacional.

Sua atuação ultrapassou a Federação. Em 2017, integrou a delegação brasileira na 10ª Conferência dos Estados Partes da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, realizada na sede da Organização das Nações Unidas, em Nova York. Mais tarde, assumiu a presidência do CONADE, onde atuou na defesa de direitos e na participação social.

Marco faleceu em janeiro de 2022. Em 2026, porém, continua presente nas lembranças dos autodefensores.

Na mensagem gravada para os 10 anos, Welington o definiu como aquele que “plantou esse grupo de autodefensores lá em 2016”.

Carlos Henrique Viana, autodefensor nacional e representante da Região Centro-Oeste, também dedicou parte de sua mensagem a Marco.

“Muito obrigado, meu amigo Marco Castilho, por você ter acreditado no nosso potencial.”

Ao falar sobre sua ausência, Carlos disse que Marco permanece “no coração de todas as pessoas com deficiência intelectual e múltipla e no coração dos autodefensores”.

Para Ester Pacheco, esse legado pode ser visto principalmente no que aconteceu depois.

“Marco ajudou a abrir caminhos e a fortalecer a autodefensoria. Depois, esses caminhos passaram a ser ocupados pelos próprios autodefensores.”

A chegada de Jonas Pontes e Carlos Henrique Viana ao CONADE é, para a presidente, uma expressão concreta dessa continuidade.

“Aquilo que Marco defendia começou a se materializar de forma ainda mais concreta: a própria pessoa com deficiência ocupando diretamente os espaços de representação, falando por si, defendendo seus direitos e participando das decisões.”

 

É nesse encontro entre memória e continuidade que a história de Marco se liga à do MONPAD. Os caminhos abertos passaram a ser ocupados por quem sempre deveria estar neles.

Uma década para celebrar e continuar avançando

“Hoje é dia de festa”, disse Welington no dia em que o MONPAD completou sua primeira década.

A celebração pertence, antes de tudo, aos autodefensores: aos que participaram dos primeiros encontros e aos que chegaram depois; aos que votaram em um Fórum, apresentaram uma proposta, se candidataram para representar sua região, discordaram em uma reunião ou fizeram uma escolha sobre a própria vida.

É isso que dá sentido aos Fóruns, às Cartas, aos Conselhos e aos espaços de representação. Todos eles ajudam a colocar em prática um princípio básico: pessoas com deficiência intelectual e múltipla têm opiniões, desejos, escolhas e direitos.

Os próximos anos, porém, ainda trazem desafios.

Rafaela Parducci defende que a autodefensoria chegue a um número cada vez maior de Associações Pestalozzi e que os autodefensores ocupem mais espaços fora do próprio Movimento, como conselhos de direitos, ambientes de trabalho e debates sobre políticas públicas.

Também será preciso avançar na acessibilidade da comunicação e enfrentar barreiras atitudinais que ainda dificultam o exercício da autonomia.

“Mais do que falar sobre inclusão, precisamos garantir que ela aconteça na prática”, afirma Rafaela.

Ivana Silva olha para o futuro a partir do que já mudou. Para ela, ver autodefensores mais seguros para se posicionar, participar de conselhos e fazer escolhas mostra que a transformação está acontecendo.

Ester Pacheco resume o compromisso que permanece:

“Não basta falar por elas. É preciso garantir que elas possam falar por si mesmas, ser ouvidas e participar das decisões.”

Ao completar 10 anos, o MONPAD chega a uma nova etapa de uma história iniciada em Aracruz. Cresceu, alcançou novos espaços e ajudou a transformar a forma como o Movimento Pestalozziano entende a participação das pessoas com deficiência intelectual e múltipla.

Há muito para celebrar e muito ainda a construir.

Na mensagem gravada para o aniversário, Carlos Henrique Viana encerrou sua fala com as palavras que acompanham essa caminhada desde o começo e continuam apontando o caminho para os próximos anos:

“Nada sobre nós, sem nós.”

 

 

 

Compartilhe: