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Na UnB, Movimento Pestalozziano amplia debate sobre acesso, permanência e pertencimento no ensino superior

Encontro reuniu FENAPESTALOZZI, MONPAD, CASESO, estudantes e autodefensores de diferentes regiões do país para discutir os caminhos necessários para que pessoas com deficiência intelectual e múltipla não apenas ingressem, mas permaneçam e participem plenamente da vida universitária

“Acessibilidade não é só uma rampa. É o acolher, o receber, o apoio de estar lá dentro, é o pertencer.”

A reflexão de Swelyn Karoline, autodefensora da Associação Pestalozzi de Arapiraca (AL), sintetiza uma das principais questões que atravessaram o encontro realizado na Universidade de Brasília (UnB), no dia 16 de setembro: garantir a entrada de pessoas com deficiência no ensino superior é fundamental, mas a inclusão não se completa no momento da matrícula.

É preciso conseguir entrar. Mas também permanecer, aprender, participar, ser acolhido, ter os apoios necessários e se reconhecer como parte daquele espaço.

Foi com essa perspectiva que o encontro “Movimento Pestalozziano e CASESO: Parcerias para inclusão e acesso à educação superior” aproximou o Movimento Pestalozziano, a comunidade acadêmica e, principalmente, pessoas com deficiência intelectual e múltipla para uma conversa sobre as barreiras que ainda existem entre o direito à educação e sua concretização na universidade.

A atividade reuniu a Federação Nacional das Associações Pestalozzi (FENAPESTALOZZI), o Movimento Nacional Pestalozziano de Autodefensores (MONPAD), o Centro Acadêmico de Serviço Social da UnB (CASESO), estudantes da Universidade de Brasília, facilitadoras nacionais e estaduais e autodefensores de diferentes estados brasileiros.

Na mesa que conduziu o debate estiveram João Pedro Xavier Gois, representante do CASESO; Edna Alegro, segunda vice-presidente Executiva da FENAPESTALOZZI; Dra. Edicléa Mascarenhas, integrante do Conselho Técnico-Científico da Federação; e Swelyn Karoline, que levou para a discussão a própria experiência de ingresso e permanência no ensino superior.

A composição não foi apenas simbólica. Ao colocar uma autodefensora lado a lado com representantes da universidade e da FENAPESTALOZZI, o encontro levou para a prática um princípio que apareceria diversas vezes ao longo da atividade: nenhum debate sobre os direitos das pessoas com deficiência deve acontecer sem a participação efetiva delas próprias.

Quando entrar não é suficiente

Ao falar sobre sua experiência no ensino superior, Swelyn fez uma distinção fundamental.

Perguntada se havia sido mais difícil ingressar ou permanecer na universidade, respondeu sem hesitar: permanecer.

“Passar dos portões para ter uma graduação superior foi tranquilo pra mim, mas o permanecer, o pertencer, ser incluída, foi uma situação mais complicada.”

A fala desloca o debate da ideia mais imediata de acessibilidade — muitas vezes associada prioritariamente à estrutura física — para aquilo que acontece depois que o estudante já está dentro da instituição.

Swelyn apontou a preparação de professores e demais profissionais como uma das mudanças necessárias para que a inclusão seja efetiva.

“Acessibilidade não é só uma rampa, [é] o acolher, o receber, o apoio de estar lá dentro, é o pertencer.”

A questão da permanência reapareceu em diferentes depoimentos.

Carlos Henrique Viana, autodefensor da Associação Pestalozzi de Catalão (GO) e conselheiro nacional do MONPAD, resumiu o desafio de forma direta:

“Não é só entrar. A gente tem que entrar e continuar.”

Para Carlos, o encontro permitiu compartilhar com estudantes e representantes da universidade as dificuldades enfrentadas desde o processo de seleção até o cotidiano acadêmico. Em seu depoimento, ele destacou questões relacionadas ao Enem, ao apoio oferecido depois do ingresso e à possibilidade de a pessoa com deficiência efetivamente se sentir pertencente à universidade.

Esse mesmo percurso — acesso, permanência e pertencimento — tornou-se um dos eixos mais claros da discussão.

Os dados nacionais ajudam a dimensionar o desafio. No Censo da Educação Superior 2024, o mais recente disponível, o Brasil registrou 10,2 milhões de matrículas em cursos de graduação. Desse total, 95.572 correspondiam a estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento ou altas habilidades/superdotação, o equivalente a 0,9% das matrículas. Nos registros por tipo, foram contabilizadas 10.577 matrículas associadas à deficiência intelectual. O Inep ressalta que um mesmo estudante pode estar registrado em mais de uma categoria. 

Os números indicam avanços em relação aos anos anteriores, mas também ajudam a explicar por que a presença de pessoas com deficiência intelectual na universidade ainda mobiliza perguntas tão básicas quanto urgentes: quem consegue chegar? De que maneira consegue entrar? E, depois de entrar, encontra condições para continuar?

O processo de ingresso também entrou em discussão

O Enem e os formatos tradicionais de avaliação apareceram repetidamente nos depoimentos dos autodefensores.

Nicolas Roberto Silva Felisberto, da Associação Pestalozzi de Canoas (RS), falou sobre a dificuldade que encontra nas provas e pediu uma relação educacional que considere diferentes formas e tempos de aprendizagem.

“Quando a gente vai fazer o ENEM, as provas são muito difíceis, não tem como fazer. Eles têm que ter mais paciência com a gente […] ter mais aprendizado com a gente, não com correria.”

A fala encontra eco nas reflexões apresentadas pela Dra. Edicléa Mascarenhas durante o encontro. Ela destacou que uma pessoa pode compreender determinado conceito e conseguir expressá-lo oralmente, mesmo encontrando barreiras em uma avaliação predominantemente escrita.

Entre os caminhos discutidos, Edicléa mencionou adequações nos processos avaliativos, possibilidades como avaliações orais quando pertinentes, mediação humana, profissionais de apoio pedagógico e utilização de linguagem simples, além do enfrentamento às barreiras atitudinais.

“A ausência de adequações causa barreiras”, afirmou.

A discussão não significa reduzir expectativas em relação às pessoas com deficiência ou pressupor incapacidade. Ao contrário: trata-se de questionar se uma única forma de demonstrar conhecimento é suficiente para reconhecer capacidades, aprendizagens e potencialidades diferentes.

Essa reflexão também apareceu no depoimento de Maira Luciana de Souza, estudante da pós-graduação em Política Social da UnB, que acompanhou a atividade.

Ao ouvir os autodefensores, Maira disse ter começado a observar uma ausência que antes não havia percebido em sua própria trajetória acadêmica.

“É uma reflexão que nós, alunos, não nos fazemos e que nem os professores nos provocam a fazer: por que essas pessoas não estão ocupando esses espaços?”

Para ela, o encontro também provocou um questionamento sobre aquilo que a universidade reconhece como uma forma válida de avaliação.

“Como é que ela vai fazer uma prova? Sendo que a prova escrita é a forma de avaliação legitimada da universidade. […] Será que é esse o único formato que existe pra gente incluir todas as pessoas?”

Ao final, Maira apontou como uma das mudanças desejáveis justamente a criação de mais espaços de construção conjunta entre pessoas com deficiência, comunidade estudantil, sociedade civil e universidade.

Autodefensores: da participação à construção das soluções

Além de Swelyn, participaram do encontro integrantes do Conselho Nacional de Autodefensores do MONPAD: Welington Henrique Pereira Souza Júnior, da Associação Pestalozzi de Porto Velho (RO); Carlos Henrique Viana, da Associação Pestalozzi de Catalão (GO); Ana Clarice da Silva, da Associação Pestalozzi de Taquarana (AL); Rondineli Vilela Faria dos Santos, da Associação Pestalozzi de Angra dos Reis (RJ); e Nicolas Roberto Silva Felisberto, da Associação Pestalozzi de Canoas (RS).

Também acompanharam a atividade facilitadoras nacionais e estaduais do Movimento, entre elas Rafaela Parducci, facilitadora nacional da FENAPESTALOZZI.

Os depoimentos dos autodefensores revelam perspectivas diferentes sobre um mesmo problema.

Welington chamou atenção para a necessidade de profissionais preparados dentro das instituições de ensino e para a importância de romper barreiras enfrentadas por pessoas que apresentam diferentes formas de leitura, escrita e aprendizagem.

Rondineli falou em respeito, aprendizagem, união e oportunidade.

“A gente tem que unir. Unir realmente é muito importante. Dar oportunidade às pessoas com deficiência.”

Ana Clarice destacou justamente o caráter coletivo do encontro:

“A gente construiu junto.”

E encerrou sua avaliação com uma expressão que atravessou toda a atividade:

“Vamos à luta. Nada sobre nós sem nós.”

Não se trata apenas de uma frase de mobilização. No contexto da autodefensoria, ela expressa uma mudança importante de perspectiva: pessoas com deficiência deixam de ocupar somente o lugar de destinatárias de decisões tomadas por terceiros e passam a integrar diretamente os espaços nos quais suas vidas, direitos e oportunidades são discutidos.

“Nosso papel não é falar por eles”

Ao abordar a atuação de facilitadores e profissionais que acompanham os autodefensores, Rafaela Parducci destacou justamente esse limite.

“O nosso papel não é falar por eles, e sim ser apoio pra que eles possam ser os autores, atores das suas vidas.”

Segundo Rafaela, apoiar significa criar condições para que a pessoa com deficiência intelectual ou múltipla faça escolhas, expresse o que deseja, construa seu projeto de vida e tenha sua voz respeitada.

“Em nenhum espaço deve ser tratado da pessoa com deficiência sem que as pessoas com deficiência estejam nele, inseridas nessa discussão e podendo falar por si.”

Para ela, levar o MONPAD para dentro da universidade também significa provocar o próprio ambiente acadêmico a reconhecer pessoas com deficiência intelectual como sujeitos de direitos e participantes legítimos daquele espaço.

A proposta é que experiências como a realizada na UnB não permaneçam isoladas, mas ajudem a ampliar o debate para outras universidades, estados e municípios.

Um “pontapé inicial”

Para a segunda vice-presidente Executiva da FENAPESTALOZZI, Edna Alegro, o encontro representa o início de uma agenda que precisa avançar.

“Hoje é um dia, um marco. É o pontapé inicial da discussão sobre a inclusão, a inserção, a permanência, o acolhimento e o protagonismo das pessoas com deficiência intelectual numa universidade.”

Edna ressaltou que o desafio não se restringe às instituições públicas e que ingresso e permanência precisam ser pensados conjuntamente.

“Ainda hoje é muito difícil a permanência, o acolhimento da pessoa com deficiência intelectual numa universidade, seja ela pública ou não.”

A intenção, segundo ela, é levar a discussão para outras instituições de ensino superior e ampliar a interlocução entre universidade, sociedade civil e pessoas com deficiência.

A agenda encontra respaldo também na Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015). A legislação estabelece o direito a um sistema educacional inclusivo em todos os níveis e determina a adoção de medidas destinadas a assegurar acesso, permanência, participação e aprendizagem, com serviços e recursos de acessibilidade voltados à eliminação de barreiras. 

“Chegou o momento de transformar as universidades”

Na avaliação da Dra. Edicléa Mascarenhas, o Movimento Pestalozziano já acumulou uma trajetória importante de atuação pela transformação da educação básica. O desafio agora precisa alcançar com mais força o ensino superior.

“Assim como começamos esse trabalho lá com a educação básica, transformando as escolas, chegou o momento de transformar as universidades.”

Edicléa destacou que essa transformação não depende apenas de tecnologias ou mudanças estruturais. Em muitos casos, exige mediação humana, apoio pedagógico, formas acessíveis de comunicação, linguagem simples e preparação das pessoas que constituem a comunidade universitária.

Ela também situou a discussão em uma perspectiva mais ampla de sustentabilidade.

“Inclusão, equidade, é sustentabilidade humana.”

A reflexão aproxima o encontro da Agenda 2030 das Nações Unidas. O ODS 4 – Educação de Qualidade prevê igualdade de acesso à educação superior e, especificamente, a eliminação de disparidades no acesso educacional de pessoas com deficiência. O ODS 10 – Redução das Desigualdades estabelece a promoção da inclusão social, econômica e política independentemente da deficiência. Já o ODS 17 – Parcerias e Meios de Implementação destaca a importância de articulações eficazes com a sociedade civil — exatamente o tipo de cooperação buscado no diálogo entre FENAPESTALOZZI, MONPAD, CASESO e universidade.

Assim, a inclusão no ensino superior deixa de aparecer como um tema restrito às políticas internas das universidades. Ela se conecta ao direito à educação, à autonomia, à participação social, à qualificação profissional, ao acesso ao trabalho e à possibilidade de cada pessoa construir seu próprio projeto de vida.

Uma universidade construída também por quem ainda encontra barreiras para chegar até ela

O encontro realizado na UnB terminou sem pretender apresentar respostas prontas.

Seu resultado mais importante talvez esteja justamente no contrário: novas perguntas passaram a ser formuladas com a participação de quem vivencia as barreiras que se pretende superar.

Que formatos de ingresso permitem reconhecer diferentes formas de demonstrar conhecimento? Como preparar professores e equipes? Quais apoios precisam estar disponíveis? Como adaptar materiais e formas de comunicação? Como garantir que permanência não signifique apenas estar matriculado, mas participar efetivamente da vida acadêmica? E como transformar essas discussões em políticas e práticas institucionais duradouras?

Nos depoimentos, a palavra pertencimento apareceu tantas vezes quanto acesso.

Não por acaso.

Para as pessoas que participaram do encontro, estar na universidade não deve significar apenas conseguir atravessar seus portões. Significa ser reconhecido como estudante, ter oportunidades de aprender, encontrar recursos quando necessários, participar das decisões e construir relações dentro daquele espaço.

Carlos Henrique resumiu essa diferença em poucas palavras: “Não é só entrar. A gente tem que entrar e continuar.”

É dessa continuidade que o Movimento Pestalozziano pretende tratar.

Uma universidade inclusiva não é apenas aquela que permite a entrada de pessoas com deficiência. É aquela que também se transforma para que elas possam permanecer, aprender, participar, pertencer e decidir sobre os caminhos que constroem dentro e fora dela.

E, como lembraram os autodefensores na UnB, essa transformação precisa ser construída com eles.

“Nada sobre nós sem nós.”

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