“Autonomia se Constrói com Apoio” é o slogan da campanha deste ano desenvolvida pela Revista Autismo.
A busca por independência é um traço fundamental da experiência humana e, como bem destaca o slogan da campanha da Revista Autismo, “Autonomia se constrói com apoio”. Essa premissa serve para compreender que a liberdade de escolha e a participação social de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) não dependem do isolamento ou da capacidade de “fazer tudo sozinho”, mas sim de uma estrutura sólida que viabilize suas potencialidades.
Nesse contexto, ganha força o conceito de Tomada de Decisão Apoiada (TDA). Longe de significar dependência ou incapacidade, ela consiste no fornecimento de ferramentas, adaptações razoáveis e redes de suporte personalizadas que permitam à pessoa neurodivergente tomar suas próprias decisões e gerir a própria vida. O apoio não anula a autonomia; pelo contrário, ele é o alicerce que a torna possível.
Segundo dados do IBGE (2022), 2,4 milhões de pessoas no Brasil possuem o diagnóstico de transtorno do espectro autista (TEA), o que corresponde a 1,2% da população brasileira. O número de diagnósticos é maior entre os homens (1,5%) do que entre as mulheres (0,9%): 1,4 milhões de homens e 1,0 milhão de mulheres foram diagnosticados com autismo por algum profissional de saúde. No que diz respeito aos grupos etários, o de maior prevalência foi o de 5 a 9 anos (2,6%).
O grande desafio atual reside em transformar a presença física em participação efetiva. Quando olhamos para o mundo corporativo, o questionamento impera: as organizações estão realmente preparadas para receber talentos com TEA? Embora existam leis de cotas e programas de diversidade, muitas organizações ainda esbarram no desconhecimento, falhando em adaptar processos seletivos e ambientes de trabalho para acolher habilidades únicas de comunicação e foco.
Na Educação Superior, a batalha é semelhante. Tanto em universidades públicas quanto em privadas, a luta atual é para romper a barreira da mera “integração”, que apenas permite a entrada do aluno pelas portas do vestibular, em direção à “inclusão real”, que garante suporte pedagógico e psicossocial para a sua permanência e conclusão de curso.
O marco legal dessa jornada no Brasil é a Lei Berenice Piana (Lei n.º 12.764/2012). Instituída em 2012, a lei representou um divisor de águas na proteção dos direitos dos autistas no Brasil ao estabelecer a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com TEA. Ao classificar o autismo como deficiência para todos os efeitos legais, a norma garantiu à comunidade o acesso pleno a direitos fundamentais em áreas como saúde, educação e mercado de trabalho. O grande diferencial desta legislação foi sua origem popular, visto que ela nasceu da mobilização social, liderada pela ativista Berenice Piana, consolidando-se como um modelo de participação coletiva no Senado Federal. Contudo, a legislação exige uma mudança profunda de mentalidade nos diversos espaços da sociedade.
O Papel Transformador das Associações Pestalozzi
Nessa engrenagem de suporte, as instituições do terceiro setor desempenham um papel vital. Um exemplo de destaque são as Associações Pestalozzi, que atuam diretamente na ponta, onde o Estado muitas vezes não alcança com a velocidade necessária; logo, as Pestalozzi funcionam como pontes essenciais na construção da autonomia da pessoa com TEA.
Por meio de um trabalho de assistência social interdisciplinar, as associações oferecem um ambiente seguro de experimentação e aprendizado. Elas não buscam padronizar os indivíduos, mas identificar suas habilidades singulares e lapidá-las. Esse trabalho direcionado transforma o potencial individual reprimido em participação social ativa, preparando jovens e adultos com TEA não apenas para o mercado de trabalho, mas para o exercício pleno de sua cidadania.
Políticas públicas e a rede familiar
Para que iniciativas como as das Associações Pestalozzi prosperem, a sustentabilidade deve vir do topo. Políticas públicas sólidas e leis de acessibilidade não podem ser vistas como caridade, mas como garantias de direitos humanos. É preciso avançar no financiamento de terapias multidisciplinares pelo SUS, na capacitação contínua de professores da rede regular e no incentivo fiscal para empresas inclusivas.
Por fim, nenhuma estrutura de autonomia se sustenta sem olhar para quem está na base do cuidado diário: as famílias e os cuidadores. Para que essa rede de suporte seja sustentável e saudável, o Estado e a sociedade precisam cuidar de quem cuida. Mães, pais e responsáveis atípicos frequentemente enfrentam jornadas exaustivas e sobrecarga mental. Oferecer suporte psicológico, flexibilidade laboral e programas de acolhimento para essas famílias é vital.
Construir acessibilidade atitudinal e estrutural é um dever coletivo. Somente quando a sociedade entender que o apoio mútuo é o motor da verdadeira independência, as pessoas com TEA poderão, enfim, escrever suas próprias histórias com a liberdade que merecem.
Referências
CAMPANHA 2026 do Dia Mundial do Autismo adota tema “Autonomia se constrói com apoio”. Canal Autismo, [S. l.], 1 abr. 2026. Disponível em: https://www.canalautismo.com.br/noticia/campanha-2026-do-dia-mundial-do-autismo-adota-tema-autonomia-se-constroi-com-apoio/. Acesso em: 2 abr. 2026.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Censo 2022 identifica 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com autismo no Brasil. Agência IBGE de Notícias, Rio de Janeiro, 2 abr. 2026. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/43464-censo-2022-identifica-2-4-milhoes-de-pessoas-diagnosticadas-com-autismo-no-brasil. Acesso em: 2 abr. 2026.